quinta-feira, 23 de junho de 2016

Tudo o que poderia ter sido

Postado por Luciana Mara às 13:00:00
Observando-me no espelho acima do buffet da sala de jantar, concluo que as cinco horas que passei rodando no shopping valeram a pena. Aquele vestido cinza escuro tinha o caimento perfeito! Ressaltava os seios e os quadris na medida certa e, milagrosamente, parecia diminuir em vários centímetros a minha cintura. Um coque frouxo, um par de brincos de pérolas, um belo salto alto e uma make discreta nos olhos, mas um marcante batom vermelho, completavam o visual. 
Não sei o que as pessoas acham, mas quando uso uma cor vibrante nos lábios, me sinto poderosa. Em uma escala de 1 a 10 de autoconfiança, arrisco dizer que sou um 12.
E, definitivamente, o dia de hoje exige um batom vermelho. 
Pego minha bolsa no sofá, as chaves do carro e saio do meu apartamento.
Não o vejo há 13 anos, desde o fatídico dia em que fiz uma escolha errada que mudou toda a minha história. 
Mas só percebi isso quando li o texto que ele escreveu.
Confesso que fiquei um pouco chocada quando recebi na minha casa uma caixa sem remetente ou qualquer coisa que identificasse quem a enviou. Meu choque triplicou quando a abri e conferi seu conteúdo. Nela estavam todas as minhas agendas da adolescência, onde eu contava todos os meus segredos. 
Quando me mudei, há um ano, pedi a minha irmã que se desfizesse delas. Não esperava que minhas agendas fossem ter um destino diferente da lata do lixo, que era onde eu achava que ela iria despejá-las. 
Sempre soube que ele tinha o dom das palavras, afinal, ele sempre escrevia minhas redações para o colégio. Eu era melhor com números, então nos completávamos. Mesmo sendo um ano mais novo que eu, na adolescência, cursávamos a mesma série, mas em escolas diferentes, então um sempre estava disposto à socorrer o outro. 
Eu vivia em sua casa, já que éramos vizinhos desde a infância. 
Minha irmã uma vez por ano me perguntava se eu já tinha me apaixonado por ele, mas éramos tão próximos, que para mim ele era o irmão homem que eu nunca tive. 
Mas eu sabia que a recíproca não era verdadeira. 
Sabia que ele era apaixonado por mim.
Desde sempre.
E talvez por isso, quando descobri que ele tinha passado em um processo seletivo para estudar em outra cidade, beijei seu primo mais velho, um que ele não se dava bem. Na sua frente. Na frente de toda a nossa família. 
Queria que ele entendesse que eu o estava libertando, para viver novas experiências longe de mim. Para viver amores loucos, histórias surpreendentes. Para aproveitar as oportunidades que bateriam à sua porta.
Eu segui meu caminho.
Ele seguiu o dele.
Seus pais se mudaram naquele ano e nunca mais tive notícias suas. Há muito tempo o procurava nas redes sociais, sem sucesso. Ele se escondeu durante todo esse tempo. 
Até o dia que aquela caixa chegou na minha casa e tudo mudou. 
Em cima de todas as minhas agendas, havia um livro. O título era “Tudo o que poderia ter sido” e tinha seu nome na capa, como autor. 
Abri a primeira página e li a dedicatória.

“Para a minha professora de matemática preferida,
Que por muito tempo foi o amor da minha vida”

Não dormi enquanto não terminei a leitura. 
Baseando-se no que eu havia escrito nas minhas agendas/diários, ele recontou a minha vida. Como minha vida teria sido. Com ele. 
E eu chorei, como não chorava desde a morte do meu pai.
Porque ao contrário do que queria para mim há 13 anos, agora eu queria tudo o que estava escrito ali. Cada carinho, cada palavra, cada viagem, cada momento.
Na última página, havia um endereço, uma data e um horário, escrito à lápis, com a caligrafia que ele escrevia as minhas redações. E era para esse destino que eu dirigia o meu carro. 
Por isso passei meu batom vermelho. Porque precisava estar confiante para o que me aguardava. 
Cheguei ao restaurante.
Assim que anunciei meu nome à hostess, ela me guiou no caminho até a mesa reservada, mas não foi necessário. Eu o reconheceria onde quer que o visse.
O mesmo sorriso fácil.
O mesmo brilho no olhar.
Logo que me aproximei, não me contive. O abracei.
Ele tinha o cheiro que eu recordava. Cheiro de banho tomado, refrescante.  
Quando dei um passo para trás, seus olhos estavam cheios d’água, reflexos dos meus.
 – Senti saudade. – Eu consegui dizer. 
 – Eu não – Ele percebeu minha feição chocada, pois logo acrescentou – porque você estava na minha cabeça o tempo inteiro.
Senti meu coração bater mais forte. 
Não seria possível recuperar o tempo perdido, mas poderíamos escrever novas memórias. Juntos. 
E não precisaria escrever em blogs ou agendas, porque ele era o ótimo escritor e nós dois juntos, poderíamos escrever nas páginas da vida, onde as palavras seriam levadas pelo vento, mas mantidas em nossos corações. 

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